Alguns já frequentavam esse distinto espaço quando fiquei enfermo na Alemanha. Só para relembrar, tive um revertério intestinal dos mais severos e precisei ir ao Hospital Universitário de Freiburg. Lá, um dos pontos altos da viagem, o diagnóstico mais rápido da história da medicina. Pedro Gomides foi testemunha e comentou sobre isso na época.
Jamais pensei que esse recorde poderia ser batido. Até hoje. Explico, estou com uma dorzinha chata na lateral da face e na garganta e, depois de amolecer um pouco a cabeça, fui ao hospital próximo daqui de casa. 25 minutos de espera e sou chamado pela médica de plantão. Gastei menos de dez segundos para explicar o que eu tinha. Em outros dez ela levantou, pegou um abaixador de língua, rasgou a embalagem. Tocou a madeirinha na minha boca e já disse: “Ihhhh, é sinusite”. Como assim? Já? Não perguntou mais nada, sentou e começou a escrever a receita. Juro, fiquei menos de dois minutos na sala. Em Freiburg, o Dr. Kerk gastou pelo menos quatro me examinando.
A letra da moça na receita e suas feições dizem claramente que “escárnio” deve ser seu nome do meio. Junte isso com os 201 reais que gastei em medicamentos e eu só torço para que ela não tenha feito nada de errado.
Adaptações não costumam ser fáceis e cobram seu preço. Com pouco mais de 40 dias morando nessa cidade, ainda luto para me adaptar com algumas coisas. Quem sai do esquema tranquilo de BH, fica assustado com o ritmo e o foco em resultados que grande parte das pessoas trabalham por aqui. De fora, achamos que é neura, mas não é. Dei muita sorte, porque há muita boa vontade, mas preciso fazer mais.
E é claro que isso é uma motivação, mas assusta. Assusta em saber que eu achava que tudo poderia ser mais fácil, por exemplo. De qualquer maneira, pra frente é que se anda. E vontade para isso é o que não falta.
“Para o infinito e além!”
Certa vez, indo de um bar até a estação Vila Madalena, fui “obrigado” a ouvir as histórias de um taxista levemente homofóbico, dono da teoria que “São Paulo uma vez por ano vira Sodoma e Gomorra”. Era uma clara referência à Parada Gay. Relevei o preconceito do cara, um sósia menos abastado e um pouco mais acabado do Otávio Mesquita, dei uma risada, paguei a corrida e fui embora.
Ontem tive a sorte de ser conduzido novamente pelo Mesquita. Refresquei sua memória, relembrando o assunto. Não deu meio segundo e ele já voltou com a mesma conversa, parecendo que as duas semanas entre uma viagem e outra não demoraram mais tempo do que um cafezinho. Ontem, ele afirmava que os gays irão assumir a presidência, mas sem conseguir desfutar disso. “Afinal de contas, o mundo vai acabar em 2022″.
“Não seria 2012?”, argumentei. Que nada! 2012 são os Maias, como poderia me esquecer disso? E nosso amigo foi completando: “É 2022, mas não vou te falar o motivo, porque senão você vai me achar doido”. Insisti um pouco mais e ele topou falar. Uma pequena pausa, um empostação na voz e começou a falar, quase como um profeta: “Deus já mostrou sua força com o fogo, no 11 de setembro de 2001. Em dezembro de 2004, foi a água e o tsunami na Ásia”. E ele foi completando, “em janeiro de 2010, o terremoto no Haiti”. Ou seja só falta o ar. E em sua progressão, isso acontecerá em 2022. Mais a mais, se somarmos os digitos, teremos o número 6, o número do cão. Doideira pouca é bobagem
Mas, qual será esse sinal? “Não sei, amigo, mas prevejo duas coisas, podendo ser inclusive uma invasão alien”. Fiquei chocado. “Só por favor, não me ache doido”. Depois dessa e já com a porta aberta, taximetro parado em R$9,30 e com a estação quase fechando, a única coisa que eu queria saber era se ele tinha troco pra dez. É cada uma…
Nunca antes na história desse país fiquei tanto tempo sem escrever. Mas é totalmente justificável, uma vez que ainda estou sem acesso à internet em casa (culpem a Net), por favor.
São tantas coisas pra falar e tudo aconteceu de forma tão rápida, que vou tentar explicar tudo em um post ou alguns, só para – na malandragem – dar um pouco mais de volume para o blog.
A mudança
Estava insatisfeito com algumas coisas em BH e, meses depois de flertar e quase me mudar para o Rio de Janeiro, resolvi tentar São Paulo. Fiz alguns contatos e meu currículo acabou ficando onde seria o ponto de partida. Havia uma vaga com meu perfil aqui. Cumpri meu acordo na agência e vim de peito aberto para cá.
Já sabia que todo mundo lá em casa iria me apoiar e foi o que aconteceu. Carol também me deu um apoio tremendo e isso me deixou muito tranquilo pra encarar a barra. Depois de dois anos, voltei a morar com a Bia, minha prima. Logo, estou bem localizado e amparado.
Profissionalmente, também é algo inédito, já que nunca trabalhei no terceiro setor. Cada dia aprendo uma coisa nova. Como sempre, vamo que vamo!

Eram 23h de quinta quando papai me ligou. Na hora eu sabia o que era, mas papai falou só pra dar a certeza: “Olha, tenho uma notícia triste, a Lourdes acabou de morrer”. Imediatamente, eu e Carol saímos do bar e fomos tomar as devidas medidas para o velório e enterro.
Apesar da tristeza, a sensação de alívio foi muito grande. Ninguém merecia sofrer daquela forma, tanto ela quanto a gente. Nos confortou muito a notícia de que a morte foi tranquila, diferente do quadro pintado pelo médico. E era egoísmo nosso, desejar que ela sobrevivesse nessas condições.
Lourdes foi uma guerreira nesse ano e meio de doença. Enfrentou tudo com alto astral e disposição fora de série. E nós vibramos juntos, a cada sessão de quimio e de rádio. Infelizmente, as coisas começaram a degringolar no começo de novembro, após a segunda fase da quimoterapia, quando o tumor no pulmão resolveu aumentar. No fim do ano, descobrimos que tinha ido para o cérebro e ai não havia muita coisa a ser feita. Resolvemos proporcionar bons momentos para ela desde então, até os dias finais, no hospital.
Além de tia, Lourdes era minha madrinha. E isso diz muito sobre a minha relação com ela. Ainda é difícil acostumar com a rotina, sem a tradicional ligação ou ida à casa dela. Estamos todos tristes, de luto, mas vai passar. Até ficar só a lembrança dos bons momentos e a saudade, claro. Obrigado, DiLourdi!
PS: A partir de agora, libero uns posts que escrevi e estavam privados. Estão todos dentro da mesma categoria. São palavras soltas sobre a situação e sobre o que senti.
PS2: Essa foto tem quase um ano, mas é muito bonita. Mostra ela junto com o Bê, meu priminho e, obviamente, sobrinho dela. A relação dos dois era muito peculiar e bonita.
Junto com a Penseira de Harry Potter, acho que deve ser legal ter o controle remoto do filme Click. Seria legal utilizá-lo em reuniões chatas, conversas com pessoas inconvenientes, dias de estômago ruim etc. Avançar o momento, até ele passar e tudo ficar bem de novo.
Pensei que poderia ser legal utilizá-lo inclusive em tempos turbulentos, como os de hoje. Mas não seria legal, por um simples motivo. Seria como fechar os olhos, afastar e não poder aprender com os momentos difíceis e tristes. Filosofando barato, são eles que nos dão força e experiência pra encarar todo o resto, seja ele bom ou ruim.
Menção mais do que especial os 996 (+1) dias completados ontem ao lado da Carol. Uma pena eu ter demorado tanto – e ter perdido tanto tempo – para achar alguém que faz tão bem e me deixa tão em paz feito ela.
Em dezembro e janeiro, a coisa mais pontual que existe nessa cidade é a famosa chuva Lavapião. Sabe qual é essa, né? É a chuva que cai britanicamente às 17h50. E acaba sacaneando a vida de todos nós, trabalhadores desprotegidos das intempéries.
Ah, e vale só um registro. O Lavapião não faz distinção de meio de transporte. Se você tiver a pé, chove. De ônibus, chove. De bicicleta, chove também. De carro, chove granizo. Dessa forma, quando o tempo fecha, ficamos na eterna dúvida: apostar quanto tempo vai durar a chuva e adiantar o serviço ou aceitar a derrota e ficar encharcado? Confesso de coração que a primeira opção me parece mais sensata.
Ontem estava caminhando para pegar o ônibus e ir para o trabalho, quando uma menininha de uns dois anos sai de um prédio acompanhada pela babá. Ela aponta pra mim e fala “Papai”! Mais que depressa falei “Não, não, não!” e contei com o apoio da babá: “Não, gracinha. Ele não é seu pai…”
Ufa! Não que eu corresse o risco, é lógico. Mas deixar tudo em pratos limpos sempre é bom.
Deixei Carol em casa e fui ver o Diego tocar com seu grupo de samba. Chego, peço uma cerveja e fico estrategicamente posicionado perto do balcão, atento ao som da turma. O garçom acha que eu sou o empresário da banda, nego duas vezes, mas na terceira acabo concordando. Ganho uma cerveja por isso. Mas isso não importa.
O que importa é que meu ponto no balcão fica perto da porta do banheiro feminino, que – registre-se – ostenta um dos maiores avisos que já vi. Nesse momento, duas mulheres bonitinhas se aproximam e retoricamente perguntam: “Aqui é o banheiro feminino?”
Eu certamente responderia algo simpático e acolhedor, mas não, optei pela grosseria: “É o que parece, né?”. Juro que fiquei assustado comigo. Não era pra ser assim, mas foi. E quando comentei com a Carol, ainda tomei uma dura. Só porque fui grosso.